kitschnet - mini-pratos ao balcão


16.7.14

Bombeiro
Às nove horas da manhã do dia 25 de Maio, Alfredo Sousa, bombeiro de profissão, entrou, fardado, na estação de correios da sua vila fazendo-se acompanhar de um cesto de vime pelo braço. Os funcionários estranharam a sua presença ali àquela hora, que não era a habitual, e a ausência de quaisquer cartas ou encomendas. Interiormente, uns acreditaram que estivessem no cesto e outros atribuíram o cesto a uma ida ao mercado, prosseguindo todos com os seus afazeres. Poucos segundos após a entrada do bombeiro Sousa, a cesta explodiu sem aviso, com estrondo e muito estrago, despedaçando-se ao mesmo tempo que o homem que a levava. Este acontecimento apanhou todos desprevenidos. Um utente que se encontrava no local ficou com queimaduras graves e os três funcionários da estação só saíram ilesos por dois deles estarem sentados atrás do balcão de pedra e um terceiro ter ido aos lavabos. Quando o fumo e a nuvem de fogo se dissiparam, foi possível ver pedaços do bombeiro suicida espalhados pelas instalações, que agora se assemelhavam a um talho em desalinho. Os restantes elementos da corporação acorreram ao local, socorreram o queimado e limparam o colega o melhor que puderam, entre lágrimas e espanto. A perícia concluiu que Alfredo Sousa levava consigo três granadas no cesto, já armadilhadas na altura da sua entrada na estação, mas não conseguiu apurar se trazia com ele mais alguma coisa, como um bilhete ou uma merenda, que pode ter sido pulverizada no processo. Os motivos deste seu gesto permanecem por deslindar, embora familiares e vizinhos garantam que ele era uma pessoa pacata, que gostava da sua canja e de lavar o carro aos fins-de-semana.

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13.6.14

Metaforismos à meia-noite
A vida também é pão e circo.

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12.6.14

Suspiro
Boa tarde, vai desejar a sua democracia pelo cu acima ou pela goela abaixo?

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11.6.14

Pico-conto

Não.



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10.6.14

Do insulto infantil

Lacrimijante


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9.6.14

Não se faz

Deus criou o homem. E permitiu que ele tivesse borbulhas na cabeça.

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30.5.14

Título provisório da minha autobiografia definitiva

  Dos zero aos sem em menos de nada



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23.5.14

Listas negras e brancas, zebra in progress

ramalhar badalhoco
langoroso mamocas
feroz beijoca
raciocinante chonar
genesíaco garina
loquaz mingau
dúctil oi/tchau
circunlóquio ninfeta
estultícia
amiúde
configurar
confabular
feérico
viço
compleição
inclemência
indisfarçado
enfunado
momentâneo
rebarbativo
epitáfio
bizantino
sofreguidão
afortunado
neófito

que deveriam existir: hesistir, quontinuar, sepois

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12.5.14

Leminski



Enquanto não me chega a poesia toda, tropeça-se num futuro velho amigo na livraria. Abre-se ao acaso e abro-me ao acaso.



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5.5.14

Babéis


À medida que a nossa intimidade relativamente a certos homens e mulheres cresce, tornamo-nos capazes de «ouvir» em leves alterações de ritmo, de velocidade da fala ou da entoação aquilo que eles nos estão na realidade a comunicar sem o dizerem explicitamente. […]
O ser humano realiza assim um acto de tradução, no sentido mais pleno da palavra, quando recebe uma mensagem verbal de outro ser humano. O tempo, a distância, a disparidade das perspectivas ou dos pontos de referência, tornam a tradução mais ou menos difícil. Quando a dificuldades ultrapassa um certo limiar, o processo deixa de ser reflexo para passar a ser consciente. A intimidade, em contrapartida, resultante quer do ódio quer do amor, assegura uma tradução confiante e quase imediata. Depois de, ano após ano, e de lugar em lugar, terem trocado entre si, como bolas de malabarista, os mesmos signos verbais, os casais errantes e inseparáveis de Beckett experimentam uma compressão mútua próxima da osmose. Na intimidade, a linguagem corrente exterior e o fundo da linguagem privada assumem uma relação de concordância crescente. A dimensão privada assume uma relação de concordância crescente. A dimensão privada penetra rapidamente as formas habituais do discurso público, sobrepondo-se-lhes. Documentam-no as notas que evocam o mundo animal ou da infância e que aparecem na linguagem dos adultos. Com o envelhecimento, o impulso de traduzir atenua-se e os pontos de referência tendem a ser cada vez mais de ordem interior. Os velhos ouvem menos e ouvem-se sobretudo a si próprios. O seu dicionário é cada vez mais o da esfera das recordações privadas.
Estou a tentar estabelecer um ponto elementar, mas decisivo: a tradução entre línguas é o tema principal deste livro, mas é também via de acesso a uma interrogação sobre a linguagem. A «tradução», devidamente compreendida, é um caso especial no arco de comunicação que cada acto de discurso bem sucedido descreve no interior de uma língua dada. Ao nível interlinguístico, a tradução levanta problemas de uma densidade por vezes visivelmente intratáveis; mas os meus problemas abundam, a um nível menos patente ou, regra geral, descurado, no interior de cada língua. O modelo «emissor-receptor» que qualquer processo semiológico e semântico representa é equivalente em termos ontológicos ao modelo «língua de partida-língua de chegada» que encontramos na teoria da tradução. Nos dois casos, encontramos «a meio caminho» uma actividade interpretativa de decifração. Quando duas ou mais línguas se articulam entre si, as barriras intermédias são evidentemente mais sensíveis e a busca de compressão torna-se mais reflexiva. Mas os «movimentos do espírito», para falarmos como dante, são rigorosamente análogos. E o mesmo se passa, como veremos, com as causas mais frequentes de mal-entendidos ou, o que vem a ser a mesma coisa, de fracasso da tradução. Em resumo: no interior de uma língua ou entre as línguas, a comunicação é tradução. Estudar a tradução é estudar a linguagem.
O facto de dezenas de milhares de línguas diferentes e mutuamente incompreensíveis terem sido ou serem faladas no nosso pequeno planeta é uma expressão manifesta do enigma profundo da singularidade humana, daquilo que faz com que dois seres humanos não possam ser totalmente idênticos do ponto de vista biogenético ou biossocial. O episódio de babel confirmou e desdobrou a tarefa interminável do tradutor, mas não a iniciou. Em termos lógicos, não havia qualquer garantia de que os seres humanos se compreendessem uns aos outros, de que os idiolectos se fundissem nessa forma de consenso parcial que são as formas de discurso partilhadas. Em termos de sobrevivência e de coerência social, esta fusão pode ter-se revelado uma vantagem adaptativa decisiva e precoce. Mas, como observava William James, «a selecção natural no que se refere à comunicação eficaz» poderá ter tido um preço considerável. Este terá incluído, não só o ideal, visado pelos poetas, de uma voz totalmente singular, da «adequação» única entre os meios expressivos de cada indivíduo e a sua imagem do mundo. Estou a pensar também no «murmúrio luminoso» dos códigos não verbais, nas formas sensoriais do olfacto, do gesto e do ouvido absoluto que os animais desenvolvem, e talvez ainda em certas modalidades de comunicação extra-sensorial […], que assim terão desaparecido do repertório da humanidade. A linguagem articulada teria sido, deste modo, um efeito da selecção natural, imensamente vantajoso, mas também redutor e conducente a um estreitamento parcial de um leque mais amplo de possibilidades semióticas. Uma vez «escolhida» essa via, a tradução tornava-se inevitável.
pp. 75-76

Como blocos erráticos, todas as línguas partilham uma miopia comum; nenhuma delas pode pronunciar toda a verdade de Deus ou dar aos que a falam a chave do sentido da existência. Os tradutores são homens que tacteiam, procurando-se, no interior de uma bruma geral. As guerras religiosas e a perseguição de supostas heresias são um resultado inevitável da babel das línguas: os homens deformam e pervertem as palavras uns dos outros. Mas há um caminho para sair das trevas: aquilo a que Böhme chama a «linguagem sensual» — a língua imediata e livre do instinto, a língua da Natureza e do homem natural […]. A gramática de Deus ressoa ainda nos ecos da natureza, e basta que a saibamos ouvir. p. 91

Os argumentos que afirmam a existência de uma ciência linguística extraem o seu conteúdo da suposição de um paralelismo com a lógica formal e com esses tipos de investigação psicológica e estatística experimental que são, de facto, susceptíveis de uma abordagem precisa e quantificável. Talvez a palavra humana não pertença a essa ordem de realidade. Os problemas postos pela ligação indissolúvel entre as modalidades de exame e o objecto examinado, a dinâmica de instabilidade que resulta da necessidade de usarmos a linguagem para estudar a linguagem, impossibilitam provavelmente uma sistematização rigorosa, para já não dizermos visando a exaustividade. Tal é, em termos de epistemologia, o dilema radical. Não se trata de uma questão de natureza convencional ou técnica. Há um autismo ontológico inevitável, um movimento que tem lugar no interior de um círculo de espelhos, sempre que reflectimos conscientemente sobre a linguagem, sempre que reflectimos a linguagem.
O pensamento reflexivo sobre a linguagem configura uma tentativa de sairmos da pele da nossa própria consciência, esse revestimento vital mais intimamente envolvente, mais estreitamente entretecido na nossa identidade que a pele do nosso corpo. pp. 140-141


George Steiner, em Depois de Babel, numa boa tradução de Miguel Serras Pereira para a Relógio d’Água .


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30.4.14

Percebi tudo mal

 

Estava à espera que o piano me caísse na cabeça, mas fui eu que caí em cima do piano.


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29.4.14

Claridade

(c) eduardo pigatto

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28.4.14

«Escuta o teu corpo»
O meu fala mal de mim nas minhas costas.


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27.4.14

Portubelo




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21.4.14

Começar. Devagar.
Começar a ler um livro, a ver um filme, a ouvir uma música. Há as artes súbitas como um quadro, um templo, ainda que se vejam devagar. E há as que se vão desenrolando gradualmente nesse devagar. Porque o devagar de um quadro ou de uma catedral vem vindo depois. E eu falo do começar. Estou suspenso do que se vai revelar, ver, ouvir no que não é senão anúncio como o começo do dia. Ter todas as hipóteses do possível, ser Deus antes de o ser, em nós ou no que em nós o vai ser. Nesse começar não acontece quase nada, para ser só expectativa de acontecer tudo. Lêem-se as primeiras palavras, os primeiros indícios do que vai acontecer em grandeza e plenitude. Ou olha-se uma criança e interrogamo-nos sobre o génio possível, ou o herói possível, mesmo o possível criminoso. A dimensão do possível é a do máximo que se pode imaginar, o não ser ainda é o ser já tudo a ser. Começar. O Deus que ergueu a mão. O absoluto do que o é no nosso imaginar. A suspensão de nós para a aparição que vai dar-se. O momento infinito da promessa. O absoluto do terrível e da ameaça. O instante da revelação que vai abrir-se. O encantamento e o medo. A anunciação do destino.

Vergílio Ferreira, Pensar, p. 94.

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11.4.14

spring's teen
mimavera, primavele

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10.4.14

Sublinhado da Silva

«[...] só há homem quando se faz o impossível; o possível todos os bichos fazem.»

Agostinho da dita


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9.4.14

cidadeles
um homem faz amor
com a cidade
ela engravida dele
que nasce nela
todas as manhãs

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31.3.14

Beyondcé
O título que ninguém usou para cronicar o concerto.

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Borlas com QREN
Gostava de fazer uma piada com isto, mas não consigo.

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28.3.14

Sinolência
O repicar aos domingos.

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21.3.14

Um microconto para a Tinta da China

Dezoito Palavras Difíceis: Hotel. O Retorno. Dois Rios E a Noite Roda, Este Samba no Escuro. Tudo São Histórias de Amor.
O Verão de 2012. Diário da Queda: Habitante Irreal. Quando o Diabo Reza, De mim já nem se lembra.

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19.3.14

19 de Março
Feliz dia do Psicanalista!

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12.3.14

Playing God no ministério
É preciso criar um organismo.

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Galinha dos ovos de ouro

Sempre um meio para um fim, nunca um fim em si mesma. Essa é que é a metáfora.


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11.3.14

Telemarketing



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Salto em cumprimento
Grande, fortíssimo?

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10.3.14

Lema da casa
Passado, estamos quites. Futuro, estamos kitsch. 
(Alexandre O'Neill)

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3.3.14

Na rua
— Um forte abraço!
— Beijinhos!

e não se tocam.

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26.2.14

Wislawa Szymborska

Nobel Lecture, December 7, 1996

 

The Poet and the World

They say the first sentence in any speech is always the hardest. Well, that one's behind me, anyway. But I have a feeling that the sentences to come - the third, the sixth, the tenth, and so on, up to the final line - will be just as hard, since I'm supposed to talk about poetry. I've said very little on the subject, next to nothing, in fact. And whenever I have said anything, I've always had the sneaking suspicion that I'm not very good at it. This is why my lecture will be rather short. All imperfection is easier to tolerate if served up in small doses.
Contemporary poets are skeptical and suspicious even, or perhaps especially, about themselves. They publicly confess to being poets only reluctantly, as if they were a little ashamed of it. But in our clamorous times it's much easier to acknowledge your faults, at least if they're attractively packaged, than to recognize your own merits, since these are hidden deeper and you never quite believe in them yourself ... When filling in questionnaires or chatting with strangers, that is, when they can't avoid revealing their profession, poets prefer to use the general term "writer" or replace "poet" with the name of whatever job they do in addition to writing. Bureaucrats and bus passengers respond with a touch of incredulity and alarm when they find out that they're dealing with a poet. I suppose philosophers may meet with a similar reaction. Still, they're in a better position, since as often as not they can embellish their calling with some kind of scholarly title. Professor of philosophy - now that sounds much more respectable.
But there are no professors of poetry. This would mean, after all, that poetry is an occupation requiring specialized study, regular examinations, theoretical articles with bibliographies and footnotes attached, and finally, ceremoniously conferred diplomas. And this would mean, in turn, that it's not enough to cover pages with even the most exquisite poems in order to become a poet. The crucial element is some slip of paper bearing an official stamp. Let us recall that the pride of Russian poetry, the future Nobel Laureate Joseph Brodsky was once sentenced to internal exile precisely on such grounds. They called him "a parasite," because he lacked official certification granting him the right to be a poet ...
Several years ago, I had the honor and pleasure of meeting Brodsky in person. And I noticed that, of all the poets I've known, he was the only one who enjoyed calling himself a poet. He pronounced the word without inhibitions.
Just the opposite - he spoke it with defiant freedom. It seems to me that this must have been because he recalled the brutal humiliations he had experienced in his youth.
In more fortunate countries, where human dignity isn't assaulted so readily, poets yearn, of course, to be published, read, and understood, but they do little, if anything, to set themselves above the common herd and the daily grind. And yet it wasn't so long ago, in this century's first decades, that poets strove to shock us with their extravagant dress and eccentric behavior. But all this was merely for the sake of public display. The moment always came when poets had to close the doors behind them, strip off their mantles, fripperies, and other poetic paraphernalia, and confront - silently, patiently awaiting their own selves - the still white sheet of paper. For this is finally what really counts.
It's not accidental that film biographies of great scientists and artists are produced in droves. The more ambitious directors seek to reproduce convincingly the creative process that led to important scientific discoveries or the emergence of a masterpiece. And one can depict certain kinds of scientific labor with some success. Laboratories, sundry instruments, elaborate machinery brought to life: such scenes may hold the audience's interest for a while. And those moments of uncertainty - will the experiment, conducted for the thousandth time with some tiny modification, finally yield the desired result? - can be quite dramatic. Films about painters can be spectacular, as they go about recreating every stage of a famous painting's evolution, from the first penciled line to the final brush-stroke. Music swells in films about composers: the first bars of the melody that rings in the musician's ears finally emerge as a mature work in symphonic form. Of course this is all quite naive and doesn't explain the strange mental state popularly known as inspiration, but at least there's something to look at and listen to.
But poets are the worst. Their work is hopelessly unphotogenic. Someone sits at a table or lies on a sofa while staring motionless at a wall or ceiling. Once in a while this person writes down seven lines only to cross out one of them fifteen minutes later, and then another hour passes, during which nothing happens ... Who could stand to watch this kind of thing?
I've mentioned inspiration. Contemporary poets answer evasively when asked what it is, and if it actually exists. It's not that they've never known the blessing of this inner impulse. It's just not easy to explain something to someone else that you don't understand yourself.
When I'm asked about this on occasion, I hedge the question too. But my answer is this: inspiration is not the exclusive privilege of poets or artists generally. There is, has been, and will always be a certain group of people whom inspiration visits. It's made up of all those who've consciously chosen their calling and do their job with love and imagination. It may include doctors, teachers, gardeners - and I could list a hundred more professions. Their work becomes one continuous adventure as long as they manage to keep discovering new challenges in it. Difficulties and setbacks never quell their curiosity. A swarm of new questions emerges from every problem they solve. Whatever inspiration is, it's born from a continuous "I don't know."
There aren't many such people. Most of the earth's inhabitants work to get by. They work because they have to. They didn't pick this or that kind of job out of passion; the circumstances of their lives did the choosing for them. Loveless work, boring work, work valued only because others haven't got even that much, however loveless and boring - this is one of the harshest human miseries. And there's no sign that coming centuries will produce any changes for the better as far as this goes.
And so, though I may deny poets their monopoly on inspiration, I still place them in a select group of Fortune's darlings.
At this point, though, certain doubts may arise in my audience. All sorts of torturers, dictators, fanatics, and demagogues struggling for power by way of a few loudly shouted slogans also enjoy their jobs, and they too perform their duties with inventive fervor. Well, yes, but they "know." They know, and whatever they know is enough for them once and for all. They don't want to find out about anything else, since that might diminish their arguments' force. And any knowledge that doesn't lead to new questions quickly dies out: it fails to maintain the temperature required for sustaining life. In the most extreme cases, cases well known from ancient and modern history, it even poses a lethal threat to society.
This is why I value that little phrase "I don't know" so highly. It's small, but it flies on mighty wings. It expands our lives to include the spaces within us as well as those outer expanses in which our tiny Earth hangs suspended. If Isaac Newton had never said to himself "I don't know," the apples in his little orchard might have dropped to the ground like hailstones and at best he would have stooped to pick them up and gobble them with gusto. Had my compatriot Marie Sklodowska-Curie never said to herself "I don't know", she probably would have wound up teaching chemistry at some private high school for young ladies from good families, and would have ended her days performing this otherwise perfectly respectable job. But she kept on saying "I don't know," and these words led her, not just once but twice, to Stockholm, where restless, questing spirits are occasionally rewarded with the Nobel Prize.
Poets, if they're genuine, must also keep repeating "I don't know." Each poem marks an effort to answer this statement, but as soon as the final period hits the page, the poet begins to hesitate, starts to realize that this particular answer was pure makeshift that's absolutely inadequate to boot. So the poets keep on trying, and sooner or later the consecutive results of their self-dissatisfaction are clipped together with a giant paperclip by literary historians and called their "oeuvre" ...
I sometimes dream of situations that can't possibly come true. I audaciously imagine, for example, that I get a chance to chat with the Ecclesiastes, the author of that moving lament on the vanity of all human endeavors. I would bow very deeply before him, because he is, after all, one of the greatest poets, for me at least. That done, I would grab his hand. "'There's nothing new under the sun': that's what you wrote, Ecclesiastes. But you yourself were born new under the sun. And the poem you created is also new under the sun, since no one wrote it down before you. And all your readers are also new under the sun, since those who lived before you couldn't read your poem. And that cypress that you're sitting under hasn't been growing since the dawn of time. It came into being by way of another cypress similar to yours, but not exactly the same. And Ecclesiastes, I'd also like to ask you what new thing under the sun you're planning to work on now? A further supplement to the thoughts you've already expressed? Or maybe you're tempted to contradict some of them now? In your earlier work you mentioned joy - so what if it's fleeting? So maybe your new-under-the-sun poem will be about joy? Have you taken notes yet, do you have drafts? I doubt you'll say, 'I've written everything down, I've got nothing left to add.' There's no poet in the world who can say this, least of all a great poet like yourself."
The world - whatever we might think when terrified by its vastness and our own impotence, or embittered by its indifference to individual suffering, of people, animals, and perhaps even plants, for why are we so sure that plants feel no pain; whatever we might think of its expanses pierced by the rays of stars surrounded by planets we've just begun to discover, planets already dead? still dead? we just don't know; whatever we might think of this measureless theater to which we've got reserved tickets, but tickets whose lifespan is laughably short, bounded as it is by two arbitrary dates; whatever else we might think of this world - it is astonishing.
But "astonishing" is an epithet concealing a logical trap. We're astonished, after all, by things that deviate from some well-known and universally acknowledged norm, from an obviousness we've grown accustomed to. Now the point is, there is no such obvious world. Our astonishment exists per se and isn't based on comparison with something else.
Granted, in daily speech, where we don't stop to consider every word, we all use phrases like "the ordinary world," "ordinary life," "the ordinary course of events" ... But in the language of poetry, where every word is weighed, nothing is usual or normal. Not a single stone and not a single cloud above it. Not a single day and not a single night after it. And above all, not a single existence, not anyone's existence in this world.
It looks like poets will always have their work cut out for them.

Translated from Polish by Stanislaw Baranczak and Clare Cavanagh

posted by pimpinelle
25.2.14

Verídico
Vim aqui ver se tinha escrito alguma coisa nova.

(Não custa tentar.)

posted by pimpinelle
18.2.14

Frequency

http://xkcd.com/1331/
(clicar na imagem)

posted by pimpinelle
17.2.14

Posteriori

O senhor que comigo espera pelo elevador tem o cabelo branco e usa-o para trás. Não é ainda branco. Amarelado. Aquilo que noutra pessoa me causaria repulsa nesta enternece. Consigo sentir um perfume antigo, de quem não se perfuma e apenas exala dignidade, um olor a madeira maciça que o tempo impregna em vez de corroer. A seu lado, o cabelo desalinhado, os braços gordos e as sandálias de borracha que exibo não impõem qualquer respeito. O senhor sorri de boca fechada, cordial mas sincero, enquanto esperamos, olhando discretamente para mim quando o elevador chega. O que tinha vindo antes estava cheio – de pessoas que não se tinham importado com a falta de oxigénio, com o contacto das peles húmidas do calor de Agosto, com o homem que comia um gelado. Este elevador, agora, está vazio, mas vejo que vai subir. O senhor convida-me a entrar primeiro – convite impresso em bom papel, simultaneamente suave e crespo ao toque, qual tecido – e, como vejo que a seta no exterior indica que vai subir quando quero descer, agradeço e lamento ter de recusar. Mas o senhor também vai descer e insiste, como quem insiste em servir-me mais um pouco de chá, que eu suba a bordo. Sorrio e entro, até porque as setas nos enganam. Estendo a mão para os botões, primo o que diz um e o que ordena às portas que se fechem, o que estas fazem, ainda que renitentemente. O senhor guarda um metro preciso de distância de mim, o suficiente para não ser demasiado próximo, o suficiente para não fingir que não estou ali. A ideal distância inter-humana.

Agora que já não estamos paralelos e sim a noventa graus um do outro, posso observá-lo melhor. Pasta de couro na mão e um jornal junto ao peito, camisa amarela clara, de Verão, e um blazer azul-escuro. Não olho para baixo, mas não é preciso. A pele dourada pelo sol e as entradas no sítio certo remetem para anos passados noutros continentes. Talvez tenha andado por Áfricas, pelas Índias. Terá partido para o Brasil em setenta e quatros? A delicada mise-en-scène, de que certamente nem se apercebe, sugere alta burguesia com tradição ou baixa aristocracia falida há muito. A sua maleabilidade nega que tenha sido um homem do regime, mas deve ter prosperado em novo. Arquitecto? Engenheiro? O nosso piso era o da livraria, o que confirma a impressão de cultura.

O elevador sobe mesmo. Surpreendido, fala comigo sem se voltar completamente, dizendo que ao menos estamos cá dentro. Conversa de circunstância, mas muito amável. Nesta altura, já o quero para avô. Duvido que me queira para neta, mas esse amor filial não correspondido só aumenta por isso, o que em psicologia deve ter um nome qualquer, certamente. Divãs à parte ou não, numa fracção de segundo imagino-o a levar-me à praia, a querer saber das minhas notas, a ler jornais no escritório fresco, cheio do cheiro a livros e madeira, o tal com que já trocou tantas moléculas a ponto de se confundirem e transportarem mutuamente. Viveria até tarde, deixar-me-ia a biblioteca depois de me deixar a mim, e só o faria quando eu estivesse casada, já com um tronco sólido a meu lado, que me amparasse aquando da sua queda. Teria muitas fotografias de nós juntos e saudades dos gelados que nos levava a comer.

No piso de cima, a porta abre-se e duas turistas orientais mostram-se confusas – não sabem se desce ou se sobe. O senhor responde-lhes em inglês que vai descer. Só pode, não há piso acima desse. A porta fecha-se. A porta volta a abrir-se. O senhor volta-se para mim e confidencia «que confusão», ao que anuo com um sorriso. Descemos. Como me perdi na imagem de nós na biblioteca, não ouço bem o que diz quando se revela perplexo ao constatar que a porta se volta a abrir, desta feita num outro andar, sem que seja o piso térreo, aquele onde ambos queremos sair. Percebo o que aconteceu e digo-lhe que voltámos ao piso inicial, que só agora iremos descer. Diz-me, apontado para os botões, que fomos nós que carregámos nos botões. Ele não carregou em botão algum, eu também não e as turistas muito menos. Aliás, e só depois reparo, parece que as duas se deixam ir à sorte para qualquer piso que lhes calhe. Digo que talvez, para não o embaraçar. Talvez porque intua o engano, corrige para: deve ter sido a memória, estas coisas às vezes têm memória.

Memória. Este caixão suspenso por cabos oleosos, comandado por um algoritmo misterioso, tem memória. Se não tem memória, tem-nos a nós. E, portanto, a nossa memória. Ainda que as minhas memórias sejam sobretudo as que não me pertencem. Como a deste meu querido avô, que comandou expedições em África, fez fortuna no Brasil, teve uma série de filhos, educados com mão firme e branda, amigos a sério, tempo para ler, reflectir e recordar. Um elevador com memória. Isto fez-me lembrar o espelho com personalidade que imaginara horas antes. (Numa loja de roupa interior, atrás do espelho, está um segurança chamado Lígio ou coisa parecida. Vê-me experimentar as coisas, a mim e a todas as que por lá passam. Assiste aos desesperos dos tamanhos errados, os olhares furtivos para a cintura, as coxas, o penteado que se compõe e a borbulha que se estuda. O pobre segurança não tem outro remédio senão compadecer-se infinitamente das mulheres, de todas as mulheres, e de as amar a todas à distância não sem uma certa tristeza, porque do lado de lá do espelho vê-lhes, muito além das curvas – que se vão tornando um pouco todas as mesmas curvas –, a angústia do lado de lá dos olhos.)

Chegados ao último piso, deixamos sair as turistas e digo-lhe agora sim, a rua, apenas para trocar uma última palavra e para lhe confirmar onde estamos. Sorri sereno, compreendendo tudo. 

Como saio à sua frente, sou obrigada a mostrar-lhe o andar desajeitado, mais carne do que queria, o saco que levo, as sandálias de borracha. Bastante mais à frente, ao descer umas escadas, olhei para trás e lá estava ele, um mastro quinhentista, uma coluna jónica. Por instantes pensei em ir ao seu encontro e perguntar-lhe se não queria lanchar comigo. Jamais o faria, mas pensei nisso. Não era preciso dizermos mais nada, bastava começarmos a conversar e recuperaríamos o tempo perdido. Seria a melhor neta do mundo, eu.

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15.2.14

Free as a bird
O compositor criou uma peça para piano passível de ser inteiramente tocada sem recurso ao dedo do meio. No dia do concerto, manteve-o hirto durante os 4 minutos e 50 segundos da partitura, enquanto a câmara o filmava de cima e o público se entreolhava.

posted by pimpinelle
14.2.14

Mandhélia

Leio o texto de Hélia Correia que foi profusamente partilhado por muita gente das minhas relações sob o mote «um grande, grande texto». Gostar de como está escrito, identificar-me em parte com as ideias da autora, compreender o que ela diz e onde quer chegar não significa que concorde com tudo. Houve duas passagens em que embati, logo ao início:
Parece, às vezes, que o cenário da ficção científica assentou no planeta actual: que criaturas mais ou menos humanóides nos conquistaram pelo interior e desapoderaram-nos de tudo, esperança, dignidade e alegria.
 
Antes de mais, vivemos tempos duros mas não vivemos numa ditadura. Estamos longe do tempo em que comboios levavam milhares de pessoas para o Inferno, e não me parece que caminhemos nessa direcção. Por muito duro que o presente seja. Que é. Sei-o bem e jamais douraria a pílula.

Mas. Não podemos exigir que os Outros (sempre os outros, agora até nem humanos) nos dêem esperança, dignidade e alegria. Temos de ser nós a criá-la, a arrancá-la à terra e, sobretudo, de dentro de nós mesmos.
Nos discursos de indignação, com que estou solidária em parte, oiço sempre – e só – eles, eles roubam, eles matam, eles esfolam. Eles tudo e nós nada. Nós seríamos felizes não fosse por eles. Por acaso elegemo-los, mas foi por acaso, apenas por isso.

Eles são grandes e nós pequeninos e não há nada que possamos fazer a não ser chorar.

Eu acho que podemos crescer. Acho que os senhores maus não se vão embora sozinhos e acho que a pancada não é uma boa maneira de os tirar do lugar. Acho que temos de ser nós a encontrar maneira de – adultos, sem pedir desculpa nem pedir a chucha – ocuparmos os seus lugares.

Nem por um segundo abdiquei do sonho – e é por ele que vamos –, mas não me digam que são os outros que mo devem por inteiro, que têm de mo dar obrigatoriamente. Não darão, terei de ser eu a concretizá-lo. Nós. Connosco. Porque eles não são alienígenas, eles são nós.

Nas conversas nos transportes, no café, é sempre ela – a colega, a patroa – e sempre ele – o namorado, o fiscal da EMEL – que são odiosos. E dizem ele com nojo. E com maiúscula. Nós nunca, nós anjos. Só que nós eles. E eles nós. A irresponsabilidade dos governos começa na nossa própria desresponsabilização, perante os outros e, pior, perante nós mesmos.
 É como se entre os protestantes e o poder não houvesse trajecto, não houvesse natureza contínua. Duvido até que conseguissem procriar se a carne de uns e de outros se encontrasse. Respiram ares diferentes e não faz sentido algum que certa retórica da esquerda os desafie a que experimentem a pobreza, a que tentem viver com o salário que destinaram para os indefesos. Provavelmente viveriam bem porque não se alimentam como nós. Nem dormem como nós. Talvez nem morram. A verdade é que pouco pensamento nós conseguimos produzir sobre eles. A desumanidade é um mistério.

Só pode ser desumano quem é humano em primeiro lugar. A referida descontinuidade só é acentuada quando nos distanciamos. Esses outros que não morrem (!) nunca foram crianças? Não têm medo? Filhos a quem desejam o melhor? Esperança, ainda que nas coisas erradas? Podem ter mau carácter, ser criminosos, maus exemplos de se ser humano, e serem nesse aspecto um pouco diferentes de nós, mas nós somo-los em certa medida. Quão diferentes podem eles ser?
Dentro de cada um de nós há pulsões que nos causam repulsa, mas estão lá. De mentir, roubar, matar. Negá-lo, separarmo-nos disso, é clivar. É o abismo, é caminho aberto para a esquizofrenia, a fragmentação, pessoal e social.
O outro tem de começar a ser compreendido, acolhido de algum modo, para poder ser transformado. Pormo-nos à margem, acima, inalcançáveis, eternamente desconsolados no nosso Olimpo de incompreensão, é sermos para sempre vítimas desse fosso e do inimigo.
Podemos distanciar-nos do mal o mais que quisermos, mas ele é banal e está, com percentagens de concentração variadas, por todo o lado. E mesmo que não esteja em nós, anda por perto (qual Six Degrees of Kevin Bacon). Se o desumanizamos, ele deixa de ser julgável, compreensível, transmutável. O pedófilo, o assassino, o corrupto não o são no éter, não basta condenar, dizer «monstro» e virar costas. Até porque é impossível. Ele é o tio, o pai, o filho, o eu. Eles são fruto da nossa sociedade, passaram por escolas, universidades, foram educados por uma família. O problema é de todos. Não somos todos igualmente culpados, mas não podemos demitir-nos do nosso papel. Não adianta, porque não basta, termos cuidado com os outros, ou com as palavras que usamos, temos de ter cuidado connosco e com os nossos e, sobretudo, procurar coragem (dentro de nós, uma vez mais) para denunciar, combater e tentar mudar o que está mal, e esperança, para acreditar que a mudança é possível.
Não é a desumanidade que é um mistério, é a humanidade. Ser-se humano também é ser-se mau. Quanto mais cedo aceitarmos isso mais cedo poderemos começar a sarar feridas e abismos.

Afinal, apesar dos horrores do século passado e deste, do sobrepovoamento, das mudanças climáticas e da inversão dos pólos magnéticos do Sol, nunca se viveu com tanta paz e prosperidade no mundo (li algures). Estamos longe, mas já estivemos mais. Continuemos a abrir os olhos e o coração. Mandela, cara***!

Pronto, já me pronunciei. O resto do texto é bom, dá que pensar e vale a pena ler. (Gosto especialmente da ideia da última frase: a dignidade conquista-se e a indignação a isso ajuda.)

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12.2.14

Fotocardiografias
Pendurei os nossos retratos nas paredes das minhas veias.

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7.2.14

Homem
Animal em vias de extensão.

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5.2.14

EU
Contra essa má companhia não me avisaram.

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Relógio de pulso
Como temos telemóvel, deixámos de usar relógio. Que pena. Já viram a beleza que é usarmos em nós um medidor de tempo? E logo no pulso. O tique-taque a imitar os instantes cardíacos. Um a contar o tempo para a frente, outro a contar o tempo para trás.

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Dia mundial
A noção de dia mundial pode parecer tonta porque a Terra é redonda e gira sobre si própria e em torno do Sol e enquanto aqui é dia na Austrália já é a noite que aqui ainda não é. Não há dias (ou noites) mundiais. Mas gosto da ideia apesar disso. É qualquer coisa. É um dia em cheio, colossal, que engloba tudo, que gira depressa, que nos puxa com força sem darmos por nada. 
Um dia mundial a todos.

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